Arquivo | Agosto, 2012

A Palavra, a alma

28 Ago

No final do séc XIX até meados do séc XX, a sociedade brasileira era muito influenciada pela cultura francesa. Era para a França que boa parte das famílias enviava seus filhos para estudar. Surge aí o termo beletrista, o amante da literatura, das belas artes.O “nosso Belletrista” não estudou em Paris, ainda é jovem, amador. Tem sede de ler e, nessa leitura transportar-se para um lugar que só ele conhece até então… o lugar onde mora sua escrita, a sua alma.

Em toda palavra há um “Q” de existência múltipla, ela, com sua perspicácia e ousadia compõe a vida em suas agonias, ânsias, felicidades e sensações. Temos a partir dela, quando literária, a aproximação com os sentimentos como no caso do amor, “amor é fogo depois de se ter bem bebido” diz um dos grandes nomes da Literatura brasileira que é Guimarães Rosa, sabemos teoricamente que o amor não é fogo e que não o beberemos, mas será que no fundo da nossa alma ele de fato não é um fogo que nos queima e acende uma chama de sentimento como os golpes da paixão e contrasta com outro elemento, a água, a fim de realmente nos chocar e paralisar? Afinal, pra que serve a Literatura senão para nos paralisar e questionar o inquestionável, trazer a sociedade para o texto e leva-lo à sociedade?

Assim fez Jorge Amado em um de seus principais livros, Os Capitães da Areia, uma trama envolvente em que os protagonizantes são considerados pela gente grande (policiais, delegados, juízes, jornalistas etc…) crianças “ladronas” que vivem apenas do furto e do sexo juvenil, fazendo disso as suas felicidades e um arauto de emoção e encontro. Cômico? Depende… com essa colocação literária Jorge não retrata apenas crianças que vivem do furto e da marginalização, mas sim, crianças que são submetidas por forças sociais àquela marginalização em que vivem e cometem. Crianças que não tiveram pais, negras que frequentam no fim de semana um terreiro de candomblé em busca de uma “mãe” e da força dos ventos, um jovem que almeja seguir o catolicismo e toma conhecimento de um padre caridoso e que burla as leis papais incrustadas em valores morais para ajudar os oprimidos,  outro, que se encanta e se abisma com os livros, o chefe Pedro bala que ainda criança é obrigada a conhecer a vida da gente grande, que lidera e comanda.

Infância, para que e para quem?

Lógico que a trama não se resume apenas a esses acontecimentos, queremos transpor aqui a importância da Literatura na formação do homem, ainda que ela não retrate as mazelas sociais como muito bem fez Jorge, a Literatura indiretamente tem a função de alfinetar, cortar até sangrar, o homem já faz parte das palavras e elas dele (de nós).

 

A literatura é uma forma de dizer o que não se diz.

 

Por Thiago Morais Felix e Marcele Becker