Arquivo | Setembro, 2012

Conto: O contrato

25 Set

De Machado de Assis

Quem quiser celebrar um consórcio, examine primeiro as condições, depois as forças próprias, e, finalmente, faça um cálculo de probabilidades. Foi o que não cumpriram estas duas meninas de colégio, cuja história vou contar em três folhas de almaço. Eram amigas, e não se conheciam antes. Conheceram-se ali, simpatizaram uma com a outra, e travaram uma dessas amizades que resistem aos anos, e são muita vez a melhor recordação do passado. Josefa tinha mais um ano que Laura; era a diferença. No mais as mesmas. Igual estatura, igual índole, iguais olhos e igual nascimento. Eram filhas de funcionários públicos, ambas dispondo de um certo legado, que lhes deixara o padrinho. Para que a semelhança seja completa, o padrinho era o mesmo, um certo comendador Brás, capitalista.

Com tal ajuste de condições e circunstâncias, não precisavam mais nada para serem amigas. O colégio ligou-as desde tenros anos. No fim de poucos meses de freqüência, eram as mais unidas criaturas de todo ele, a ponto de causar inveja às outras, e até desconfiança, porque como cochichavam muita vez sozinhas, as outras imaginavam que diziam mal das companheiras. Naturalmente, as relações continuaram cá fora, durante o colégio, e as famílias vieram a ligar-se, graças às meninas. Não digo nada das famílias, porque não é o principal do escrito, e eu prometi escrever isto em três folhas de almaço; basta saber que tinham ainda pai e mãe. Um dia, no colégio, contavam elas onze e doze anos, lembrou-se Laura de propor à outra, adivinhem o quê? Vamos ver se são capazes de adivinhar o que foi. Falavam do casamento de uma prima de Josefa, e que há de lembrar a outra?

— Vamos fazer um contrato?

— Que é?

— Mas diga se você quer…

— Mas se eu não sei o que é?

— Vamos fazer um contrato: — casar no mesmo dia, na mesma igreja…

— Valeu! nem você casa primeiro nem eu; mas há de ser no mesmo dia.

— Justamente.

Bem pouco valor teria este convênio, celebrado aos onze anos, no jardim do colégio, se ficasse naquilo; mas não ficou. Elas foram crescendo e aludindo a ele. Antes dos treze anos já o tinham ratificado sete ou oito vezes. Aos quinze, aos dezesseis, aos dezessete tornavam às cláusulas, com uma certa insistência que era tanto da amizade que as unia como do próprio objeto da conversação, que deleita naturalmente os corações de dezessete anos. Daí um efeito certo. Não só a conversação as ia obrigando uma para a outra como consigo mesmas. Aos dezoito anos, cada uma delas tinha aquele acordo infantil como um preceito religioso.

Não digo se elas andavam ansiosas de cumpri-lo, porque uma tal disposição de ânimo pertence ao número das coisas prováveis e quase certas; de maneira que, no espírito do leitor, podemos crer que é uma questão vencida. Restava só que aparecessem os noivos, e eles não apareciam; mas, aos dezenove anos é fácil esperar, e elas esperavam. No entanto, andavam sempre juntas, iam juntas ao teatro, aos bailes, aos passeios; Josefa ia passar com Laura oito dias, quinze dias; Laura ia depois passá-los com Josefa. Dormiam juntas. Tinham confidências íntimas; uma referia à outra a impressão que lhe causara um certo bigode, e ouvia a narração que a outra lhe fazia do mundo de coisas que achara em tais ou tais olhos masculinos. Deste modo punham em comum as impressões e partiam entre si o fruto da experiência.

Um dia, um dos tais bigodes deteve-se alguns instantes, espetou as guias no coração de Josefa, que desfaleceu, e não era para menos; quero dizer, deixou-se apaixonar. Pela comoção dela ao contar o caso, pareceu a Laura que era uma impressão mais profunda e duradoura do que as do costume. Com efeito, o bigode voltou com as guias ainda mais agudas, e deu outro golpe ainda maior que o primeiro. Laura recebeu a amiga, beijou-lhe as feridas, talvez com a idéia de sorver o mal com o sangue, e animou-a muito a pedir ao céu muitos mais golpes como aquele.

— Eu cá, acrescentou ela; quero ver se me acontece a mesma coisa…

— Com o Caetano?

— Qual Caetano!

— Outro?

— Outro, sim, senhora.

— Ingrata! Mas você não me disse nada?

— Como, se é fresquinho de ontem?

— Quem é?

Laura contou à outra o encontro de uns certos olhos pretos, muito bonitos, mas um tanto distraídos, pertencentes a um corpo muito elegante, e tudo junto fazendo um bacharel. Estava encantada; não sonhava outra coisa. Josefa (falemos a verdade) não ouviu nada do que a amiga lhe dissera; pôs os olhos no bigode assassino e deixou-a falar. No fim disse distintamente:

— Muito bem.

— De maneira que pode ser que em breve estejamos cumprindo o nosso contrato. No mesmo dia, na mesma igreja…

— Justamente, murmurou Josefa.

A outra dentro de poucos dias perdeu a confiança nos olhos negros. Ou eles não tinham pensado nela, ou eram distraídos, ou volúveis. A verdade é que Laura tirou-os do pensamento, e espreitou outros. Não os achou logo; mas os primeiros que achou, prendeu-os bem, e cuidou que eram para toda a eternidade; a prova de que era ilusão é que, tendo eles de ir à Europa, em comissão do governo, não choraram uma lágrima de saudade; Laura entendeu trocá-los por outros, e raros, dois olhos azuis muito bonitos. Estes, sim, eram dóceis, fiéis, amigos e prometiam ir até o fim, se a doença os não colhe — uma tuberculose galopante que os levou aos Campos do Jordão, e dali ao cemitério.

Em tudo isso, gastou a moça uns seis meses. Durante o mesmo prazo, a amiga não mudou de bigode, trocou muitas cartas com ele, ele relacionou-se na casa, e ninguém ignorava mais que entre ambos existia um laço íntimo. O bigode perguntou-lhe muita vez se lhe dava autorização de a pedir, ao que Josefa respondia que não, que esperasse um pouco.

— Mas esperar, o quê? inquiria ele, sem entender nada.

— Uma coisa.

Sabemos o que era a coisa; era o convênio colegial. Josefa ia contar à amiga as impaciências do namorado, e dizia-lhe rindo:

— Você apresse-se…

Laura apressava-se. Olhava para a direita, para a esquerda, mas não via nada, e o tempo ia passando seis, sete, oito meses. No fim de oito meses, Josefa estava impaciente; tinha gasto cinqüenta dias a dizer ao namorado que esperasse, e a outra não adiantou coisa nenhuma. Erro de Josefa; a outra adiantou alguma coisa. No meio daquele tempo apareceu uma gravata no horizonte com todos os visos conjugais. Laura confiou a notícia à amiga, que exultou muito ou mais que ela; mostrou-lhe a gravata, e Josefa aprovou-a, tanto pela cor, como pelo laço, que era uma perfeição.

— Havemos de ser dois casais…

— Acaba: dois casais lindos.

— Eu ia dizer lindíssimos.

E riam ambas. Uma tratava de conter as impaciências do bigode, outra de animar o acanhamento da gravata, uma das mais tímidas gravatas que tem andado por este mundo. Não se atrevia a nada, ou atrevia-se pouco. Josefa esperou, esperou, cansou de esperar; parecia-lhe brincadeira de criança; mandou a outra ao diabo, arre-pendeu-se do convênio, achou-o estúpido, tolo, coisa de criança; esfriou com a amiga, brigou com ela por causa de uma fita ou de um chapéu; um mês depois estava casada.

Por Shirley Maurina
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Conto: O Desaparecido

25 Set

De: Rubem Braga

 livro “A Traição das Elegantes”, Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1969

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

Por: Jéssica Tavares

Características do Conto

25 Set

 Extensão

     O Conto é, antes de mais nada, curto. Mesmo que alguns autores insistam que determinadas narrativas de longa duração sejam também contos por suas características estruturais, pode-se considerar que estes casos estão aí para confirmar a exceção da regra. Assim, o conto é curto.  E por que curto, conciso.  Não há tempo para se espalhar em grandes detalhes, em sutilezas que destoam de seus tempos, de seu necessário ritmo de leitura.  Um conto deve estar contido entre algumas palavras (no caso de micro contos) até um máximo de cinco a seis mil palavras.

     Linhas Dramáticas

     Enquanto que num romance podem haver várias linhas de desenvolvimento, como por exemplo, estórias secundárias acontecendo em volta da trama do protagonista, no caso do conto a trama é única. Não há a possibilidade da dispersão no desenvolvimento da estória, dado as características de concisão do conto.

     Tempo

     O conto não tem muito espaço para idas e vindas no tempo.  A utilização de recursos como o flash-back é rara,  permanecendo a narrativa quase sempre em uma única linha de encaminhamento temporal.

    Espaço

    Dada a curta extensão do conto, os seus cenários – e sua descrição, portanto! –  são restritos, podendo o autor os reduzir ao mínimo indispensável para a sua contextualização espacial. Esta pode até ser, em alguns casos, inexistente.

     Final enigmático

     Alguns escritores contemporâneos escrevem a narrativa sem um final, ou até mesmo sem um desenvolvimento flagrante.  Seus contos são mais contemplativos, mais um estado d’alma, às vezes sem nexo aparente. O mais comum, no entanto, é o conto com uma estrutura tradicional, com início, meio e fim. O final deve sempre ser uma surpresa, a resolução de um enigma, ou a inversão de uma situação que deveria seguir em direção oposta, ou que pareceria sem solução. O suspense deve ser mantido até o último parágrafo, quando, depois de prender o leitor através de toda a sua leitura, o escritor lhe fornece a catarse – a risada, o susto, a surpresa.

http://zip.net/bnhFLH

Por Shirley Maurina

Gêneros Literários – Continuação

19 Set

Retomando o tema da semana, gêneros literários…

Entenda agora essas limitações, ou melhor, definições.

Lírico: O gênero lírico é o texto onde há a manifestação de um eu lírico. Esse expressa suas emoções, ideias, mundo interior ante o mundo exterior. São textos subjetivos, normalmente os pronomes e verbos estão em 1ª pessoa e a musicalidade das palavras é explorada.

 Olhei até ficar cansado
De ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro
Os punhos e os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro

(Titãs – As Flores)

 

Épico: Os textos épicos narram a história de um povo ou de uma nação, geralmente são textos longos envolvendo viagens, guerras, aventuras, gestos heroicos e há exaltação de heróis e seus feitos.

 

Passada esta tão próspera vitória, 
Tornado Afonso à Lusitana Terra, 
A se lograr da paz com tanta glória 
Quanta soube ganhar na dura guerra, 
O caso triste e dino da memória, 
Que do sepulcro os homens desenterra, 
Aconteceu da mísera e mesquinha 
Que despois de ser morta foi Rainha

(Episódio de Dona Inês de Castro –Os Lusíadas, Canto III, 118 a 125)

 

Narrativo: Ato de narrar acontecimentos reais ou fictíciosNa Antiguidade Clássica, os padrões literários reconhecidos eram apenas o épico, o lírico e o dramático. Com o passar dos anos surgiu dentro do gênero épico a variante: gênero narrativo, a qual apresentou concepções de prosa com características diferentes, o que fez com que surgissem divisões de outros gêneros literários dentro do estilo narrativo: o romance, a novela, o conto, a crônica, a fábula. Porém, praticamente todas as obras narrativas possuem elementos estruturais e estilísticos em comum e devem responder a questionamentos, como: quem?, quequandoondepor quê?

 

Ele foi cavando, cavando, cavando, pois sua profissão – coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavarademais.Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que sozinho não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enrouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardias. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouviu um som humano, embora o cemitério estivesse cheio de pipilos e coaxares naturais dos matos. Só pouco depois da meia-noite é que vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: O que é que há?
O coveiro então gritou, desesperado: Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível! Mas, coitado! – condoeu-se o bêbado – Tem toda razão de estar com frio. Alguém tirou a terra de cima de você, meu pobre mortinho! E, pegando a pá, encheu-a e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.

 

(O Coveiro – Milor Fernandes)

 

Dramático: Representação de um acontecimento por atores. A principal característica do texto dramático é a presença do chamado texto principal, compostopela parte do texto que deve ser dito pelos atores na peça e que, muitas vezes, é induzido pelas indicações cênicas, rubricas ou didascálias, texto também chamado de secundário, que informa os atores e o leitor sobre a dinâmica do texto principal.

DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ

— Muito bom dia, senhora,
que nessa janela está;
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?
— Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar;
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
— Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má;
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
— Isso aqui de nada adianta,
pouco existe o que lavrar;
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
— Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há;
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.

(João Cabral de Melo Neto – Morte e Vida Severina)

Jocasta

Pelos deuses, Édipo, tens de acreditar no que ele assegura e jura em nome dos imortais; tens de o fazer por respeito por mim e por aqueles que estão presentes.

Coro

Consente, Senhor; suplico-te que esteja o teu espírito de acordo com isto.

Édipo

Em que queres tu que eu ceda?

Coro

Respeita quem dantes não era um insensato e agora se protege com a santidade do juramento.

Édipo

Mas sabes tu o que pedes?

Coro

Sei.

Édipo

Dize então tudo o que pensas.

Coro

Não castigues por um crime duvidoso, por um feito incerto, o amigo que um juramento consagrou.

Édipo

Mas fica sabendo que o que pedes é, para mim, a morte ou o exílio.

(Trecho de Édipo Rei – Sofócles)

Referências

As definições foram retiradas dos seguintes sites:

http://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%AAnero_liter%C3%A1rio

http://www.brasilescola.com/literatura/genero-narrativo.htm

http://www.mundoeducacao.com.br/literatura/os-generos-literarios.htm

Por: Sabrina Beltrão e Aline Möller

Gêneros Literários…

19 Set

“O didático costuma ser definido como gênero especial, que fica fora da verdadeira literatura.

Wolfgang Kayser

É muito comum sermos apresentados a Literatura de uma forma restrita, sendo que o verdadeiro Belletrista é aquele que dá asas a sua imaginação sem prender-se a regras. É enlouquecer nas palavras liberando demasiadamente a criatividade, entretanto, respeitando as definições do excelentíssimo Aristóteles, daremos início à explicação da divisão criada por ele na Grécia Clássica, na qual a poesia era a forma predominante de literatura.

Na divisão tradicional os gêneros são três: lírico, dramático e épico, contudo, para simplificar a instruçãoseparou-se do gênero épico o narrativo (Nem toda narração é épica, explicaremos isso depois), totalizando quatro gêneros literários.

Acompanhe em nosso próximo post mais detalhadamente sobre essa classificação.

Encantadas,

As Belletristas

(Aline Möller e Sabrina Beltrão)

 

NELSON RODRIGUES, O ETERNO Com seu olhar ao mesmo tempo trágico e épico, o centenário dramaturgo nunca deixou de ser nosso contemporâneo.

18 Set

Da precoce carreira jornalística nos anos 30 à fama que lhe rende homenagens neste ano, em que se comemora seu centenário, a vida e a carreira de Nelson Rodrigues percorreram a história brasileira no século 20. Foi ele quem criou o teatro moderno nacional, com Vestido de Noiva, em 1943, quem mais exaltou o futebol da geração de Pelé nos anos 60, quem conquistou inimizades por se alinhar à ditadura dos anos 1970.

Com sua obra, suas controvérsias e a própria biografia, Nelson Rodrigues inscreveu-se como um dos polemistas mais bem-humorados do país, o hiperbólico cronista do futebol e nosso maior dramaturgo. Só depois de sua morte, no entanto, em 1980, passaria a ser um raro caso de unanimidade inteligente (o que, para ele, era um oxímoro), com montagens do diretor Antunes Filho para suas peças, o estudo de sua obra pelo crítico Sábato Magaldi e, em 1992, o lançamento da biografia O Anjo Pornográfico, do jornalista Ruy Castro. Desde então, Nelson foi rediscutido, remontado, relançado.

Influência para dramaturgos e cronistas, Nelson Rodrigues comemora 100 anos sem ter envelhecido. Nos momentos transcendentais que pontuam suas histórias, no retrato cru que fez da sociedade brasileira, nos temas e personagens que povoam sua obra, a única marca do tempo é a da eterna atualidade.

Era outro tempo, em um Brasil imemorial. Era a época em que as mães e as viúvas tinham furores de Sarah Bernhardt, a célebre atriz francesa do século 19. As moças na rua, as datilógrafas, as colegiais andavam pelas calçadas com um charme de Joana d’Arc. No futebol, a bola tinha um instinto clarividente e infalível que a fazia acompanhar o verdadeiro craque. O próprio tempo era uma convenção que não existia nem para o craque, nem para a mulher bonita.

Nelson Rodrigues considerava a época em que viveu trágica e épica. Como cronista, desenhava contornos de duelo em uma simples briga e revestia, como costumava dizer, a mais sórdida pelada de futebol de uma complexidade shakespeariana. Nas crônicas que escreveu nos anos 60, Nelson carregou o século passado para fora do tempo; transformou o cotidiano óbvio em momentos transcendentais.

O olhar aguçado, Nelson desenvolveu desde cedo, quando deu início a sua carreira de jornalista aos 13 anos e meio, em A Manhã. No jornal de seu pai, recheava de drama as histórias com mortes mais banais e tornou-se perito em recriar os enredos dos namorados que se matavam por amor. Vinte anos depois, na década de 1950, o doce amargo das ruas faria com que sua fama explodisse na coluna diária A Vida Como Ela É…, no jornal Última Hora, de Samuel Wainer.

Em paralelo às crônicas, as pinceladas breves e expressionistas inspiradas no dia a dia carioca pintaram também outros quadros. Em 1953, dois anos depois de estrear sua famosa coluna, Nelson escreveu A Falecida, que dá início à fase das tragédias cariocas em sua obra teatral. As oito peças que integram esse conjunto delimitado pelo estudioso Sábato Magaldi estão coladas nos tipos e nas situações suburbanos de então, circunscritas à Zona Norte do Rio, à semelhança de A Vida Como Ela É…. Os saltos transcendentais se evidenciam tanto nas falas dos personagens quanto nas rubricas para os atores.

“Nelson Rodrigues não fica démodé porque fala sobre a vida, e a vida não é datada”, diz Arnaldo Jabor, cineasta que nos anos 70 filmou de Nelson a peça Toda Nudez Será Castigada (1965)e o romance O Casamento (1966). E as remontagens de seus diversos textos por alguns dos grupos mais relevantes de hoje não cessam, apenas comprovando sua atemporalidade. Desde os anos 90, já levaram Nelson para os palcos os diretores Eduardo Tolentino, com o Grupo Tapa, o encenador Rodolfo García Vázquez, dos Satyros, o mineiro Gabriel Villela, Cibele Forjaz, com sua Companhia Livre, a carioca Armazém Companhia de Teatro, com o diretor Paulo de Moraes, e a mineira Yara de Novaes, entre outros.

“Por que você não escreve sobre pessoas normais?” Se tivesse vindo de qualquer pessoa, que não Manuel Bandeira, a pergunta não teria doído tanto. Mas foi o poeta, que desde a primeira peça de Nelson, A Mulher sem Pecado (1941), não lhe poupava elogios, quem jogou um grande balde de água fria no dramaturgo logo após a leitura de Senhora dos Afogados, de 1947. Esse texto teve o mesmo destino de Álbum de Família, do ano anterior – sina de que Anjo Negro, escrita entre uma e outra, escapou por pouco: a censura. A incompreensão de Bandeira ecoava o incômodo do “teatro desagradável” que Nelson vinha fazendo. “São obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na plateia”, descrevia o próprio autor – que no entanto achava que estava, justamente, falando de pessoas normais em sua obra.

Inventário das paixões humanas

“Nelson fez um trabalho de visualização humana único. Sua obra é o tratado mais completo sobre as classes médias brasileiras, sobre seu comportamento psicológico, sexual e linguístico”, diz Jabor. Os instantâneos do grande retratista acabam por superar a efemeridade e conquistar o status de um “rico inventário das paixões humanas”, nas palavras de Magaldi. “Em qualquer réplica, ou frase de efeito, à primeira vista, apenas escandaloso, o dramaturgo esconde uma verdade psicológica mais sólida que a percebida pelo verniz social”, postula o estudioso. A alta voltagem sexual vem romper uma capa de inocência, hipocrisia e moralismo de fachada da classe média.

Os sacrifícios da família de Os Sete Gatinhos (1958) para que a caçula se case de véu e grinalda ou a aspiração maior de Zulmira, de A Falecida (1953), de ter um enterro de luxo decupam os desejos persistentes da classe média, emoldurados em sexo reprimido e deformado por costumes morais, sociais e religiosos. Os desvios do lar são belamente sintetizados por Peixoto, genro e funcionário de um empresário milionário em Otto Lara Resende ou Bonitinha, Mas Ordinária, de 1962. Conversando no bar com um colega, Peixoto sentencia: “Toda a família tem um momento em que começa a apodrecer. Percebeu? Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. E lá, um dia, aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo”.Homofobia e racismo

“A sensação que tenho é que Nelson anda reescrevendo as peças em cima das notícias dos jornais”, diz, brincando, o diretor paulistano Marco Antônio Braz, devoto fervoroso do evangelho rodriguiano. Na sua mais recente montagem de O Beijo no Asfalto (1960), em cartaz no Teatro de Arena Eugênio Kusnet, em São Paulo, ele vê saltar da trama discursos latentes da homofobia ou do bullying que estão na pauta do dia.

No enredo, o jovem protagonista Arandir presencia o atropelamento de um homem e corre para acudi-lo. Ajoelha-se, segura a cabeça do sujeito e beija-o, compadecido, antes do último suspiro. O beijo se transforma em uma acusação escandalosa de homossexualismo, que evoluirá para desconfiança dentro de sua própria família e, por fim, seu assassinato.

Anjo Negro, de 1946, foi o ponto de partida para a discussão sobre racismo que retornou à ordem do dia em 2006, na montagem do diretor alemão Frank Castorf, do Teatro Volksbühne, que juntou Nelson Rodrigues ao compatriota Heiner Müller. Ismael e Virgínia, que no texto de Nelson vivem uma relação de violência permeada por infanticídios motivados pela cor da pele dos filhos, foram mergulhados no contexto de uma revolta de escravos na Jamaica.

Para além de temas ainda contemporâneos como esses que pontuam a obra de Nelson, ­­a “meditação sobre o amor e morte”, questão fundamental, circunscreve seu teatro. Tão eterno quanto esse tema, o universo do chamado “Flor de obsessão”, como Nelson foi definido pelos seus amigos, era delimitado por outras questões recorrentes nos textos, como o tabu desnudado, a obsessão pela pureza, e a ambivalência do mundo familiar e do mundo público. Os temas vinham regidos por procedimentos também marcados, como os personagens que transformava em caricaturas, as máximas e a fala coloquial. Tudo para expressar uma verdade interior, sem sutilezas, sem censura, com “gosto em devassar a intimidade do indivíduo, libertando-o da carga censora que disciplina o convívio social”, comenta Magaldi.

Derrubar as máscaras para destrinchar o homem por trás do verniz social, cavoucar sua essência por entre os acontecimentos do dia a dia. Esses procedimentos já eram, na primeira metade do século passado, associados a um nome que seria entronizado nos anos seguintes: Sigmund Freud (1856-1939). Suas ideias eram na década de 1930 vulgarizadas pelos jornais, explica Ruy Castro, e ele era então “o tarado oficial”.

Nelson não leu os preceitos que fundariam a psicanálise, mas foi e seria muito mais com o passar do tempo associado a ela. Tanto pelos tabus que trazia à tona quanto pelas estruturas de alguns textos que faziam do palco quase um divã – nos planos da realidade e do delírio em que se passa Vestido de Noiva (1943), por exemplo, ou no monólogo Valsa Nº 6 (1951), em que a autorreflexão de uma adolescente destila angústias, delírios e abstrações em busca de sua identidade.

Inconsciente coletivo

No quesito inconsciente, Antunes Filho prospectou mais fundo e trouxe à baila outras camadas da obra. Nas montagens que reúnem diversas peças do dramaturgo – Nelson Rodrigues: O Eterno Retorno (1981), Nelson 2 Rodrigues (1984) e Paraíso Zona Norte (1989) –, Antunes Filho apoiou-se na teoria dos arquétipos do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung e nas teorias simbólicas do mitólogo romeno Mircea Eliade. Recentemente, na montagem de A Falecida Vapt-Vupt (2009), recorreu também ao psicanalista francês Jacques Lacan. “Eu fui para o inconsciente estrutural, coletivo: a cultura que foi imposta a todos”, explica o diretor do Centro de Pesquisa Teatral.

As camadas mais profundas que se revelam nos textos de Nelson estabelecem entre estudiosos a ideia de uma obra que jamais será datada. Como diz Antunes Filho, Nelson está sempre na esquina, esperando alguma coisa acontecer. “A gente ouve o rumor permanente daquelas vozes que saltam como se fossem explosivos, pólvoras. São as frases objetivas, altissonantes, derradeiras. Os personagens falam aquilo, mas há um rumor por baixo, por fora.” Um ruído de fundo que, seja no silêncio pré-unanimidade, seja no alvoroço dos eventos centenários, não esmorece.

Postado por: Marcele B dos Santos

A produção e recepção literária

4 Set

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A literatura e a sociedade estão conectadas, não podendo haver sociedade sem literatura e literatura sem sociedade. Uma obra literária escrita por uma pessoa que existe e, consequentemente vive em sociedade, também contém marcas dessa sociedade, por mais que uma obra seja fictícia, construída do imaginário do autor.

A Teoria Literária como nós conhecemos hoje em dia, nasce no século XX, com a Neo Crítica Americana e o Formalismo Russo.

A Neo Crítica dos Estados Unidos, surgiu nas décadas de 20 e 30, tendo o seu auge nas décadas de 40 e 50. Na Neo Crítica, rompe-se o costume que predominava até então, de se estudar uma obra literária levando em consideração a vida do autor, concentrando-se nos estudos das técnicas empregadas na obra.

Um pouco antes do surgimento da neo crítica dos EUA, nascia o Formalismo Russo. Essa corrente literária estabelece que a poética e a literatura tem seus próprios métodos de estudo, negando abordagens que levem em conta fatores extraliterários.  Sendo assim, aspectos sociológicos, históricos e biográficos passam a ser ignorados no estudo de uma obra.

Considerado como o pontapé inicial para os estudos modernos no campo da literatura, os principais representantes do Formalismo Russo foram Boris Eichenbaum, Roman Jakobson, Viktor Chklovsky, Yury Tynyanov, e Grigory Vinokur.

Ambas correntes literárias pregavam que o texto literário é o único fator importante, devendo ser estudada por si só.

Já os estudos sobre a recepção das obras literárias passam a tomar forma mais tarde, em estudos contemporâneos como a Estética da Recepção, que dá ao receptor um papel, deixando ele de ser apenas um agente passivo, passando a atuar como um agente ativo, que participa na elaboração do sentido, na construção final da obra literária.

Sem leitores não existe obra literária, já que um processo de comunicação ocorre apenas quando o receptor entende a mensagem enviada pelo emissor. Ler não é simplesmente decifrar as palavras escritas, é necessário que haja a compreensão por parte do leitor.

Hans Robert Jauss, um dos defensores da Estética da Recepção, afirmava que  é impossível analisar uma obra separada da maneira como é lida e recebida pelo público leitor; sem leitores, obras não são completas.

Ele prega que a recepção da obra configura-se como um fato social, já que os conhecimentos prévios adquiridos pelo leitor determina a recepção da obra.  “A História literária só cumprirá a sua tarefa quando a produção literária for representada, não apenas na sincronia e diacronia da sucessão dos sistemas que a constituem mas também compreendida, enquanto história particular, na sua relação específica à história geral. Esta relação não se reduz ao facto de se poder descobrir na literatura de todos os tempos uma imagem tipificada, idealizada, satírica ou utópica da existência social. A função social da literatura só manifesta genuinamente as suas possibilidades quando a experiência literária do leitor intervém no horizonte de expectativa da sua vida quotidiana, orienta ou modifica a sua visão do mundo e age consequentemente sobre o seu comportamento social.” (JAUSS, 1993, p. 105)

Por Liliane Fuzikava