Conto: O Desaparecido

25 Set

De: Rubem Braga

 livro “A Traição das Elegantes”, Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1969

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

Por: Jéssica Tavares

Uma resposta to “Conto: O Desaparecido”

  1. Aline Möller 25 de Outubro de 2012 às 18:09 #

    Fiz uma pequena análise do conto, vejam se concordam:

    Extensão: Curto. Conciso. Não há grandes detalhes.

    Linhas Dramáticas: A trama é única. Não há a possibilidade da dispersão no desenvolvimento da estória, dado as características de concisão do conto.

    Tempo: Não tem muito espaço para idas e vindas no tempo. A narrativa permanece em uma única linha de encaminhamento temporal.

    Espaço: Dada a curta extensão do conto, os seus cenários e sua descrição, portanto são restritos, reduzidos ao mínimo indispensável para a sua contextualização espacial.

    Final enigmático: Não há um desenvolvimento flagrante. É mais contemplativo, mais um estado d’alma, sem nexo aparente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: