Autora de ‘Cinquenta Tons de Cinza’ fala de sua inspiração para criar o best-seller

21 Out
  • Em entrevista ao ‘Estado’, a escritora britânica E L James lembra como a série ‘Crepúsculo’ influenciou sua criação polêmica
Pedro Caiado, ESPECIAL PARA O ESTADO / LONDRES

É o livro sensação do momento. No Brasil, sua venda chegou a 260 mil cópias em 40 dias. Não se fala em outro assunto nos EUA e na Europa. Os direitos para o filme já foram comprados por Hollywood por (estima-se) US$ 5 milhões. Por que tanto frenesi em torno de Cinquenta Tons de Cinza? A resposta é simples: sexo. A trilogia é a mais picante na lista de livros mais vendidos em anos. A história da submissa jovem estudante Anastasia Estelle, que se envolve com o bilionário bonitão e dominador Christian Grey é recheada de sexo explícito e sadomasoquismo.

 

Tudo começou quando a britânica E L James assistiu ao filme Crepúsculo - Marloes Van Doorn/Divulgação
Marloes Van Doorn/Divulgação
Tudo começou quando a britânica E L James assistiu ao filme Crepúsculo

O sucesso, inicialmente na internet, chamou a atenção dos editores que haviam dito não à publicação da trama em papel e e-books. E assim se iniciava o fenômeno. Os livros têm encantado mulheres ao redor do globo e apimentado a relação de casais. Tudo fruto da imaginação de uma dona de casa do subúrbio de Londres, a britânica de 48 anos Erika Mitchell, ou E L James, que da noite para o dia se tornou o nome mais quente da literatura mundial. A então executiva de um estúdio de TV britânico, infeliz com seu trabalho, resolveu dedicar tempo integral à escrita do romance que se tornou um recorde de vendas em poucos meses.

O segundo livro da trilogia, Cinquenta Tons de Cinza Mais Escuro, acaba de ser lançado no Brasil e o terceiro já alcança recorde de reservas. Quem é a mulher por trás dos obscenos livros? O Estado conheceu a inglesa que em nada lembra a fogosa personagem Anastasia. Com jeans, camisa preta e joias, Erika nos recebe com uma Coca-Cola Diet na mão, enquanto reforça seu desprazer em dar entrevistas: “Os jornalistas escrevem o que querem”. E garante que o dinheiro não mudou sua vida. “Vou poder reformar minha cozinha.”

Como tudo começou?
Sempre quis escrever. Em novembro de 2008, fui ver o filme Crepúsculo. Gostei muito e depois li os livros e adorei. Em 15 de janeiro, sentei e comecei a escrever uma história, que não foi publicada. E depois, em abril, escrevi outra. Ambas não foram publicadas e não envolviam sexo. Então, descobri esse site Fanfiction, por intermédio do fórum de Crepúsculo. Vi várias histórias e achei que também podia fazer aquilo. Então, escrevi uma ficção em três semanas. Nesse período, lembro de ter lido umas cinco histórias sobre sadomasoquismo. Não sabia o que significava aquilo, mas achei tudo quente e fascinante.

Estas são as suas inspirações?
Sim. Quando li sobre sadomasoquismo, pensei como seria me encontrar com uma pessoa que estivesse nesse mundo. Foi assim que começou. Era originalmente uma história saída do site de Crepúsculo – Fanfiction. Nunca pensei que iria publicá-lo, ou pensei que, se publicasse, seria cheio de restrições.

A história Submissive no site fanfiction é muito similar à sua trilogia. É uma inspiração direta?
Chama-se O Dominador e a Submissa, além de quatro outros que li. Mas não quero dar o nome das histórias porque algumas eram muito mal escritas.

Você acha que livros eróticos não podem ser bem escritos?
Eu acho que você pode escrever de qualquer maneira. Algumas pessoas não gostam do meu estilo de escrever, mas é assim que eu sou, casual. Se as pessoas não gostam, é problema delas. Mas muitas gostam.

Stephanie Meyer é sua clara inspiração. Você já conversou com ela?
Não. Mas ela foi muito gentil em uma entrevista recente sobre seu novo livro, A Hospedeira. Ela disse que meus livros não são o seu gênero preferido, mas me desejou toda a sorte do mundo, o que eu achei muito legal. Adoraria encontrá-la para agradecer pela inspiração. E ela inspirou centenas de milhares de mulheres a começar a escrever. Crepúsculo é uma história muito erótica, apesar de não ter sexo envolvido.

O sucesso surpreendeu você?
Não esperava isso. Quem poderia imaginar que uma história tão obscena fosse se tornar popular assim. É extraordinário. Os números das vendas são insanos. Como eu nunca tive essa experiência antes, não sabia se eram bons ou não. Eu lembro de a editora me ligando para dizer que uma loja tinha acabado de vender 22 mil cópias, e eu perguntava: ‘Isso é bom?’.

Como todo esse sucesso, você se compararia com J. K. Rowling, por exemplo? Daria conselhos a ela, que agora lança seu primeiro romance adulto?
Não me comparo com ninguém. E, claro, ela não precisa de conselhos. Adorei os livros e os filmes do Harry Potter. Li e vi todos. Lembro de sempre estar ansiosa pelo próximo livro. Era tão épica aquela saga. Mas escrevi Cinquenta Tons de Cinza para mim. Foi divertido escrever. Aquelas são as minhas fantasias. Claro, tendo por base as fantasias de outras mulheres, o que faz com que eu me sinta menos pervertida (risos envergonhados).

Como foi o processo de criação?
Não tinha ideia de onde a história ia. Gastei cada hora disponível escrevendo. Eu trabalhava meio expediente na época. Comecei a escrever e virou uma obsessão. Escrevia no BlackBerry no metrô e pensava na trama enquanto dirigia. Parei de sair, de ver TV.

Você procurava por sadomasoquismo no Google?
Fiz muita pesquisa, mas foi bem mais específico que isso. Há uma quantidade enorme de informação na internet sobre esse assunto. Mas, no meu livro, Anastasia não é submissa, então este não é um livro de sadomasoquismo.

Mas a história é repleta de detalhes… Li que você ligou para uma loja de automóveis para saber se um casal teria espaço para fazer sexo no banco de trás de um Audi.
Essa história é hilária, mas não posso contar agora, pois está no terceiro livro que ainda vai ser lançado no Brasil. Tenho uma imaginação muito viva, podemos dizer assim. Visitei sex shops também.

Livros eróticos sempre existiram. Você é responsável por tornar o gênero pop. O que faz o seu livro ser diferente?
É uma história romântica, de paixão. E quando as pessoas se apaixonam, elas fazem muito sexo, é isso o que acontece. Christian faz sexo de uma maneira particular. Ele não faz amor, pois tudo para ele é relacionado com poder e controle. Outros livros do gênero têm uma linguagem muito pesada. Não uso essa linguagem e a descrição do sexo é sutil. Geralmente, as mulheres não gostam de palavras pesadas.

Que livros você indicaria para quem se inicia no gênero?
Há vários: Beautiful Disaster, de Jamie McGuire, por exemplo. Acabei de ler Shadows of Night, de Deborah Harkness, é o segundo livro de uma trilogia chamada All Souls. Quando eu tinha 30 e poucos anos, li vários livros de mulheres como Brenda Joyce, Noel Roberts, Judith McNaught, são mais românticos, sem sexo explícito. Devo ter lido umas 600 histórias naquela época. As mais pornográficas talvez tenham sido as de uma série chamada Black Lace.

O que acha da opinião negativa? Homens queimaram seus livros nos EUA e há quem diga que seus livros são mal escritos.
O que acho mais fascinante é que as pessoas começam a ler e não conseguem parar. E foi exatamente assim comigo quando li Crepúsculo. Essa onda de opiniões negativas é só barulho no fundo. Felizmente, a maioria tem gostado, então, nesse aspecto, eu realmente fiz sucesso. As mulheres amam meus livros. Recebi o e-mail de uma mulher dizendo que não lia nada há 28 anos, e terminou Cinquenta Tons em três semanas. É uma leitura fácil. E quem não gosta, tem o direito de não gostar.

Você trabalhou como executiva de um estúdio de TV por 20 anos. Essa experiência a ajudou no marketing do livro?
Não. São coisas diferentes. Odiava um dos meus últimos trabalhos e escrever foi minha maneira de escapar disso.

Os direitos do seu livro foram comprados por US$ 5 milhões…
Não vou falar sobre o dinheiro. O projeto está indo para frente, lentamente.

Postado por: Marcele B. dos Santos

http://www.estadao.com.br

3 Respostas to “Autora de ‘Cinquenta Tons de Cinza’ fala de sua inspiração para criar o best-seller”

  1. Liliane Fuzikava 23 de Outubro de 2012 às 20:45 #

    50 tons de cinza conseguiu se transformar em literatura de massa, apesar de seu teor erótico, o que é bastante incomum. A trilogia se tornou um fenômeno de vendas.

  2. Aline Möller 25 de Outubro de 2012 às 14:31 #

    As pessoas que começam a ler a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza” não conseguem parar, isso é fato. A opinião negativa que gerou alguns protestos, como o citado na matéria acima, na qual homens queimaram esses livros nos EUA, e as pessoas que falam que esses livros foram mal escritos, ignoram os números que esse sucesso já alcançou. “É o livro sensação do momento. No Brasil, sua venda chegou a 260 mil cópias em 40 dias. Não se fala em outro assunto nos EUA e na Europa. Os direitos para o filme já foram comprados por Hollywood por (estima-se) US$ 5 milhões.”.
    Eu acredito que exista um livro certo para cada pessoa. Depois que encontramos esse livro, começamos a ter sede de ler livros que se aproximem daquele, para sentir as mesmas emoções. Se algum dos livros da trilogia for o livro certo, ele será um passaporte para o mundo da literatura e aos pouco a pessoa vai descobrir outros gêneros, outros autores,… Então não concordo que só porque o livro seja sobre sexo e sadomasoquismo as pessoas devem considera-lo como ruim, impróprio, mesmo porque a maioria nem leu e está, literalmente, julgando o livro pela capa, primeiro leia e depois critique. A história dessa trilogia faz parte da nossa realidade, não é nenhuma história fantástica. Pode despertar fantasia, mas é realidade. Veja o exemplo que a autora da trilogia contou: “Recebi o e-mail de uma mulher dizendo que não lia nada há 28 anos, e terminou Cinquenta Tons em três semanas. É uma leitura fácil. E quem não gosta, tem o direito de não gostar.”
    Me chamou a atenção a forma como o sucesso surgiu. Pela internet. Os editores que haviam dito não à publicação da trama em papel e e-books só deram a merecida atenção para esse sucesso depois que algumas publicações em Fanfictiion na internet viraram sensação. Hoje temos essa ferramenta a nosso favor e se soubermos usá-la podemos divulgar cada vez mais nossas ideias, inclusive como jornalistas.
    Por último, gostaria de comentar sobre o desprazer que a autora tem em dar entrevistas, para ela: “Os jornalistas escrevem o que querem”. Nós como futuros jornalistas devemos pensar nisso, porque com tantos meios de comunicação acessíveis a qualquer pessoa, qualquer um pode executar o papel de um jornalista, dar a sua opinião, etc. Mas nós, devemos repensar sobre até onde podemos nos submeter a linhas editoriais e até onde podemos alterar o que nossos entrevistados falam.
    Ainda não li nenhum dos livros da trilogia, mas cada vez que escuto um comentário novo me empolgo mais.

  3. Shirley 30 de Outubro de 2012 às 4:14 #

    Refletir o porque de a literatura de massa fazer tanto a cabeças dos leitores tem feito curiosidades a respeito do desvendamento e papel dela perante a sociedade e relação com a literatura clássica. Ela é um tipo de literatura afinal? Qual o lugar que encontraremos a resposta definitiva? Qual a importância de tal definição para a literatura de massa? Ela se sustenta da própria “fazer literatura” ou da curiosidade dos leitores sobre os assuntos? E assim vão surgindo novas idéias, e assim a literatura se movimenta. Ao mesmo tempo que exemplificam a vida da literatura, nos fazem desvendar, explicar e contextualizar novas tendências, novos modos. Assim como todos ciclos, ele gira em tordo das pessoas.. Concretiza palavras, expõem sentimentos, e constroem historias ao redor de um mundo.

    Por Shirley Maurina

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